quarta-feira, 19 de março de 2008

A Música

Já há algum tempo decidi parar de discutir, com amigos ou com outros nem tão amigos assim, sobre música. Decidi parar com isso quando descobri que não há como delimitar o bom gosto musical. Podemos apenas tentar impor o nosso gosto musical argumentando que esse, sim, se trata de bom gosto musical. Mas é claro que poucos irão concordar conosco. Porém é possível, sim, delimitar um bom senso musical, o que me parece até muito fácil.
Por exemplo, como alguém pode afirmar que tem bom senso musical quando ouve, com um volume altíssimo, o clássico dos boleiros de hoje, o Créu. Como? Alguns argumentam que é bom para dançar. Plllrrrrrrrr (ruído de desdém)! Então eles gostam muito de dançar enquanto dirigem, ou conhecem alguma técnica de dança interior, que os faz terem uma satisfação interna enquanto ficam sentados quase que imóveis numa mesa de bar. Talvez o principal atrativo seja a diversidade de créus da música. Começamos agora com o Crrréééééééuuuu, crrréééééééuuuu, agora mais rápido créu créu créu créu créu, agora coelho cr cr cr cr cr cr. Inexplicável! Duvido que exista algum sentimento ligado a essa música, exceto, talvez, a compensação da falta de créus em suas relações amorosas.
Outro motivo pode ser o fato de não terem sentido o que uma música de verdade pode proporcionar. Talvez ao sentirem a alternância de paz e tensão nos vinte e poucos minutos de Echoes, do Pink Floyd, eles esqueçam do créu, e lembrem do céu. Talvez eles não queiram paz, mas sim adrenalina, então que tal ouvirem Smell Like Teen Spirit, do Nirvana, ou Enter Sandman, do Metallica, e descobrirem o arrepio empolgado que seus riffs iniciais causam. Talvez quando eles ouvirem a total (total!) perfeição de Staiway to Heaven, do Led Zeppelin, eles tenham a grande revelação de que sim, existe um Deus, pois não é possível acreditar que réles mortais sejam capazes de criar tal maravilha. Ou até, ficando no Brasil mesmo, eles precisem sentir o furacão emocional que passa pelo nosso corpo quando ouvimos algum grande clássico da Legião Urbana, ou a sensação de até esclarecimento universal ao ouvirmos as letras reveladoras de Humberto Gessinger e Raul Seixas. Ou a sensação que poderia ser descrita ao ouvirmos mais dezenas de bandas que poderiam ser aqui citadas.
Então que o bom senso prevaleça. Quer ouvir samba? Ouça Demônios da Garoa, não Inimigos da HP. Quer ouvir funk, ouça funk, como o de Frank Zappa e Jorge Benjor, não essa batida sem nexo que alguns imbecis tiveram a petulância de chamar de funk. Reggae, ouça Bob Marley, não Chimarruts ou outros destes insultos musicais tocados em rádios. E, antes de tudo, prezem pelo bom senso, pois tendo isso, com certeza o bom gosto está garantido. Concordem ou não, tenho dito.

3 comentários:

Lila disse...

Seria bom se, além da possível "dança interior" como vc denominou, houvesse 'música interior' também. Aí, se conectava a ela apenas quem quisesse. Pois acho que pior que esse amontoado de sons horrorosos é a imposição deles a quem definitivamente não quer ouvi-los. Gosto não se discute, mas nesses casos, não dão chance a quem não quer ouvir o créu e demais pérolas da falta de talento, certo? Qual é a solução? Talvez "Whola Lotta Love" num trio elétrico? =)

Marco Vicente disse...

acompanho o voto do relator Zé Gotolino, com a ressalva de dever acrescentar alguns clássicos, como a 5a sinfonia de Beethoven (é assim que se escreve??) por exemplo...

abraço

Nana disse...

Fantástica a analogia à falta de créus nas próprias relações!
Assino embaixo, sem tirar nem por.