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segunda-feira, 12 de maio de 2008

Rinite

Tenho uma rinite alérgica do cão. Não, não é alergia a pelo de cachorro. É rinite forte mesmo. Do tipo que os sintomas não te deixam de cama, mas te irritam tão profundamente que só o que você tem vontade de fazer é não sair dela.
O primeiro e pior sintoma é o nariz entupido e escorrendo. Como é possível isso? Não entra nada, absolutamente nada de ar nele, porém a saída de água equivale ao volume de água que corre em umas duas horas nas Cataratas do Iguaçu. A vontade é de enfiar um O. B. em cada narina, já que construir uma represa está fora de cogitação. Verbas. Falta delas.
O segundo também está relacionado com água: lágrimas. Os olhos lacrimejam como se eu tivesse visto toda minha família morrer a petelecadas (petelecadas?) amarrado sem poder fazer nada para ajudar. Petelecadas do Shaquille O’ Neal. Tá bom, um pouco menos dramático, mas são muitas lágrimas mesmo. E não tem espaço para colocar O. B.s.
Terceiro, mas não menos importante/irritante: a dor de cabeça. Não é uma dor de cabeça como as demais, as de gripe mesmo, em que toda a cabeça dói. Não. Essa dor é uma peregrina. Percorre a sua cabeça como o Paulo Coelho em Santiago de Compostela, só que sem nenhuma lição, milagre ou auto-controle. A dor começa encima do olho. Fica por ali por cerca de meia hora. Depois vai pra trás das orelhas. Depois de mais um tempo, como se tivesse esquecido a carteira, volta para cima do olho. Depois ela aparentemente desaparece dando, aos não iniciados no Círculo da Rinite, a impressão de que está tudo bem agora. Quanta inocência. À primeira mexida de cabeça seu cérebro pulará como um Pogobol. E, como num jogo de Pinball, as extremidades de seu crânio, inexplicavelmente, impulsionarão o cérebro para outro lado, onde as outras extermidades retribuirão o impulso, e assim vai. Milk-shake de idéias.
Também tem o problema dos tratamentos. Segui alguns à risca e foram totalmente ineficazes. Acho que tenho uma rinite geneticamente modificada. Talvez dela saia algum monstro que dominará o planeta num futuro próximo. Ou talvez minha corisa seja a cura para a aids. Já pensou a responsabilidade, milhões de vidas dependendo do meu nariz? Duvido muito que alguém que servir de cobaia. Uma assoada de nariz na mão e pronto: tchau HIV.
Enfim, estou fadado a viver fanho e com o nariz escorrendo. A indústria de lenços agradece.

terça-feira, 4 de março de 2008

Manual do Mineiro da Luz


Paulo Coelho, o escritor que mais vende livros no Brasil há cerca de dez anos, passou em sua jornada espiritual por diversas provações, onde adquiriu muito conhecimento, inclusive de supostas técnicas de magia e alquimia. Ele publicou muitas destas lições e ensinamentos em seu livro Manual do Guerreiro da Luz, pois de que vale o saber sem repassa-lo à alguém? O livro ensina uma pessoa do bem a lutar por um mundo melhor e tornar-se uma pessoa cada vez mais do bem.

Bom, também eu passei por várias provações em uma empresa de extração de carvão mineral para poder alcançar um nível mais elevado de percepção mineradora, para poder entender melhor como a mina funciona e conhecer os atalhos de uma convivência harmoniosa e produtiva no trabalho. Infelizmente, minha visível superioridade técnico-teórico-produtiva na empresa não foi vista com bons olhos por meus superiores hierárquicos, o que culminou em minha demissão, mas isso não vem ao caso. O importante é que esta experiência me levou a desenvolver um manual que deve ser seguido por todo trabalhador de extração de carvão: o Manual do Mineiro da Luz. Descrevo aqui os principais pontos do livro, como um aperitivo.

  • Todo Mineiro da Luz deve lavar-se lentamente para que o carvão, que ao fim de um dia de trabalho consegue penetrar nos cantos (cantos, não orifícios) mais obscuros do corpo, seja totalmente removido e devolvido à natureza, retomando seu ciclo natural.
  • Ele nunca deixa sua roupa e comida expostos, pois sabe que vestir uma blusa com dezenas de nós é quase impossível. Aprendeu também, da pior maneira, que graxa no meio do pão causa imenso dano ao paladar.
  • Vocabulário do Mineiro da Luz:

Em Acha: Cansado, exaurido, estafado.

Tauba: Tábua.

Chilame: Resíduo líquido de carvão não-beneficiado.

Muu: Corno, ser do sexo masculino traído pela mulher.

  • Um Mineiro da Luz sabe que o banheiro é um conceito ultrapassado, e que qualquer canto vagamente escuro da mina é digno de receber o fruto de nossas necessidades fisiológicas.
Por fim, o Mineiro manuseia sua marreta com a perícia de um samurai, veste sua bota e seu capacete com a paixão de um kamikaze, e usa esse manual com a sabedoria e humildade de quem sabe que sempre há algo o que aprender.