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sábado, 15 de março de 2008

Strange Days


Jim Morrison cantou certa vez: Os dias estranhos nos acharam/ Os dias estranhos seguiram nossos rastros/ Destruirão nossas mais simples alegrias/ Continuaremos a brindar ou encontraremos uma nova cidade? (Cantou isso em inglês, claro). É visível que, nos versos de Strange Days, música do grupo americano The Doors, a estranheza dos dias de hoje (digo hoje por que, mesmo tendo sido composta há mais de quarenta anos, o tema continua de uma atualidade ímpar) ganha um tom apocalíptico, porém visto por uma perspectiva menos pessimista, possui a sua magia e o seu lado engraçado.
Fui hoje a uma vídeo locadora no centro da cidade de Criciúma, locadora essa que talvez seja a maior da cidade, e da qual se espera que prezem pelo bom atendimento ao público. Bom, chegando lá, já pude notar a presença de cerca de quinze pessoas para serem atendidas por um único funcionário da locadora. É de se imaginar como estaria o humor deste funcionário. Cumprimentou-me com um boa tarde que, em um cenário um pouco (só um pouco) mais soturno soaria como um desses bordões de filmes de suspense.
Funcionário: “Hello Zé, I want to play a game.”
Eu: “Boa tarde.”
Funcionário: “Live or die, make your choise.”
Ou então você entra no recinto e ele olha para você com um giro de cabeça de cento e oitenta graus, e sussurra “Seven days”.
Depois outro fato me levou a entender o mau humor do balconista. Fora, obviamente, o excesso de mão de obra que tantos clientes juntos exige, a burocracia da locação é o cúmulo da falta de praticidade. Primeiro o locatário, que já tem um cadastro pronto, tem que apresentar a carteira de identidade. Depois de feita a identificação pela carteira, é feita uma nova por impressão digital, com um canhão de identificação a laser. Depois disso o cliente paga, passa pelo lado do balcão e pega o filme do outro lado, pois o atendente cruza o balcão para entregar lá, enquanto os outros quatorze clientes esperam na fila. Depois ele parte novamente e repete o mesmo processo com os outros locatários (ou candidatos a, pois creio que a probabilidade de ser barrado durante o processo seja grande). Surge ai um novo tipo de fonte de renda, os coiotes da locação, para os locatários ilegais.
E o oposto disso ocorre nas pequenas locadoras. A expectativa é baixa, porém a praticidade e o atendimento são exemplares, e você é recebido sempre de braços abertos. Refazendo os versos de Jim: Os dias estranhos nos acharam/ Os dias estranhos seguiram nossos rastros/ Destruirão nossas mais simples alegrias/ Continuaremos a locar, ou encontraremos uma nova locadora?