
Parafraseando o tenente Bill Kilgore, de Apocalypse Now, adoro o cheiro de corpo sangrando pela manhã. Não adorava até esta manhã. A partir de agora adoro.
Tenho uma mulher linda. Tinha. Quer dizer, ainda tenho só que no momento ela se encontra um tanto... fria.
Fria e tão bela como eu nunca tinha visto. Como o contraste da pele, a cada minuto mais branca, com o vermelho do sangue lhe esvaindo da garganta lhe cai bem. Sem contar os mamilos intumescidos (parece um tanto doentio, mas creio que ela sentiu algum prazer enquanto agonizava) apontando para o céu, talvez o lugar onde ela esteja agora. Talvez não. Talvez esteja no inferno, ou simplesmente desaparecido. Reflexões do pós-vida nunca me tomaram muitos esforço dos neurônios, até que a morte lhe confronte desta maneira. Mesmo que seja a morte alheia. Mesmo que tenha sido eu a confrontá-la.
Não faço ideia do motivo pelo qual fiz isso. Minha mulher, além de linda, era maravilhosamente amorosa, companheira e, até onde eu saiba, fiel. Simplesmente num momento de ira não hesitei em transpassar-lhe um estilete na garganta. Ela sangrou e tentou gemer por longos e prazerosos (pelo menos para mim) 12 minutos. Exatos.
Fiquei excitado vendo aquela cena, confesso. Ela ali, nua, as carnes rijas se contorcendo na falta de ar, os cabelos loiros misturados ao sangue que lhes tingia. Sempre pedi que ela pintasse o cabelo de ruivo, mas ela disse que achava vulgar. Vendo ali, tive que concordar. Não acho vulgaridade algo ruim, mas ela achava. Bom, mais um desejo que fiz ela realizar, só que desta vez sem lhe dar muita opção.
Bom, como ia dizendo, fiquei excitado vendo ela ali fria e morta. Senti vontade de me masturbar, porém achei que seria um pouco de falta de respeito com um momento tão sublime entre nós.
Sabe que, quando percebeu o que tinha acontecido, ela me olhou, mas não parecia chateada, sequer surpresa. Parece que sabia que, hora ou outra, eu faria algo do tipo. Não que eu tenha cara de bandido, nem me comporte como um. Não. Estou mais para nerd do que para bandido. Se bem que acho que por baixo de cada óculos de cada nerd tem um assassino em potencial. Não sei, apenas uma teoria. E isso se aplica aos nerds que não usam óculos também, pensemos que usam óculos imaginários, certo?
Então, ela não se surpreendeu, não reagiu, nada. Claro que ela não tinha muitas opções de reação mas, nos filmes, as vezes pessoas com gargantas cortadas tentam até matar seus assassinos. Acho que isso tirou um pouco da beleza do acontecimento. A falta de reação e de uma trilha sonora. Ah, uma trilha sonora iria bem. Acho que vou colocar uma música. Não, agora não. Preciso me livrar do corpo, pois assassinar alguém que amava até posso fazer, agora ser preso está fora de cogitação.
Mas o que fazer com o corpo meu Deus, o que?
Decidi botar, sim, uma música. Echoes, do Pink Floyd foi a pedida. Além de achar que o fato de ser bela e soturna em determinados momentos, o que combina em muito com a situação, ela me daria belos vinte e cinco minutos de tempo para pensar.
E eis que, com a ajuda de Waters e Cia, tive uma epifania: moramos no décimo sexto andar, porra! Simulo uma briga e atiro-a lá de cima, legítima defesa. O fiz. Espalhei algum sangue, meu e dela pela casa e defenestrei-a. Pronto.
Mas o problema de uma epifania é que normalmente elas vêm em seqüência. Dei-me conta que havia cortado a garganta dela antes. Obviamente qualquer legista meia boca saberia que isso já havia ocorrido antes da queda, e que ela já estava morta muito antes de tocar o solo.
Sem saber o que fazer, olhei pra baixo e percebi: ela tinha caído de bruços, suas nádegas nuas e bronzeadas apontadas para mim. Num misto de desespero e excitação, me atirei, também nu agora, em direção a ela. Este seria nosso último coito.
Talvez o próximo seja no inferno...